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18 de março de 2017 - 01:43Automobilismo Nacional, Fórmula 1, Memorabilia

Moco e Marivaldo

Pace e Marivaldo_02

Em 1969, ano mágico na vida de José Carlos Pace e Marivaldo Fernandes, eles venceram os 1000 km de Brasília, uma das mais tradicionais provas do Endurance nacional

RIO DE JANEIRO - Em 1977, como diria o poeta, eu era uma criança e não entendia nada.

Não sabia ainda o que era Fórmula 1. Não sabia o que era automobilismo.

A descoberta viria só no ano seguinte. E em 1978, o Brasil não tinha mais aquele piloto que foi intitulado a partir daí o “campeão mundial sem título” e que, tempos depois, batizaria o Autódromo de Interlagos.

Há quatro décadas, em 18 de março, quando o escriba aqui mal tinha completado seis anos de idade, José Carlos Pace desapareceu num trágico acidente de avião, aos 32 anos. Com ele, estava o amigo Marivaldo Fernandes, onze anos mais velho e o piloto do monomotor, que pertencia a Marivaldo. O “Fiapo” era empresário de ônibus na Baixada Santista e assim como Moco, era daqueles que guiara de absolutamente um tudo na vida, um apaixonado que só não foi mais longe numa carreira internacional porque não quis.

Além da paixão pelo automobilismo e da amizade, solidificada com a conquista do título brasileiro de automobilismo em 1969, quando tiveram à disposição a lendária Alfa P33 da equipe Jolly-Gancia, Moco e Marivaldo tinham em comum os amigos no esporte e a paixão por aviões. Marivaldo tinha também uma fazenda em que plantava laranjas em Araraquara – e era justamente para lá que os dois se dirigiam até o acidente fatal nas proximidades de Mairiporã – na imprensa internacional, houvesse quem acreditasse que Pace morrera na Selva Amazônica, vejam vocês…

Moco vivia o auge da carreira na Fórmula 1, cada vez mais respeitado dentro de sua equipe, pois assumira o desenvolvimento do modelo BT45 com motor Alfa Romeo Boxer 12 cilindros – mais possante que os Ford Cosworth V8 na época.

Tinha disputado 72 GPs – o último foi o GP da África do Sul, 13 dias antes da tragédia e liderado nas duas corridas anteriores. Em Interlagos, palco de sua única vitória em 1975, por seis voltas e na Argentina, corrida que perdeu por ter contraído uma virose, por 12 passagens. Pace era um piloto tão querido que Bernie Ecclestone, seu patrão na Brabham, estava inconsolável quando, dois dias depois, teve que estar em Brands Hatch na Race of Champions – prova extracampeonato. Watson conquistou a pole position na ocasião e dedicou o feito à memória do nosso Moco.

Há quem diga que Bernie, o todo-poderoso da F1 até há bem pouco tempo atrás, transformou-se por completo após a morte de Carlos Pace, como o brasileiro era chamado lá fora.

Onde quer que estejam, Moco e Marivaldo estão felizes por serem lembrados sempre com o carinho e a admiração que os verdadeiros fãs do automobilismo lhes reservam. Pace foi o herói de toda uma geração e seus feitos, seja na F1, com a Ferrari do Mundial de Carros Esporte, a bordo do Shadow Can-Am e até mesmo sentando o pé nos Maverick Divisão 1 que guiava – e muito – no Brasil quando não tinha provas da categoria máxima do automobilismo – ficaram na memória e na história.

Saudade, Moco… saudade, “Fiapo”…

4 comentários

  1. Pedro Perez disse:

    Linda homenagem Rodrigo! Realmente eu acredito que o Moco se foi no melhor momento dele na F1, uma grande perda.

  2. luigi disse:

    Eu gostava muito do Renault R 8 do Marivaldo que sempre usava # 45, era um carrinho danado, incomodava as Alfas da Jolly., lógico que não faria isso sê o Marivaldo também não fosse um grande piloto. Quanto ao Moco ,pouco tem a acrescentar de tudo o que já foi dito ,era um ganhador tipo ,ou ponta ou quebra( quando tinha um carro que sabia poder ganhar),diferente do Emerson ,mais estrategista. ,mas talvez até um pouco mais veloz. Pena ter morrido justamente quando tinha um dos melhores carros do grid na temporada. Eu tive a sorte de viver essa época em que o automobilismo era mais paixão de aficionado do que um profissionalismo de altos custos e grandes rendimentos para os que dele vivem ,más é o sinal dos tempos e nada ha de se fazer , ainda bem que as novas gerações só conhecem este automobilismo coxinha de hoje em dia,não tem parâmetros para se decepcionarem com o que veem .

  3. Rafael Cejulio disse:

    Infelizmente não tive a oportunidade de ver o Moco correndo, mas pelo que leio, não tenho dúvida que ele seria campeão. Ele parecia ser um cara tranquilo, tinha carisma e sentava a bota na pista.
    Sei lá Mattar, ele, assim como Gilles pra mim eram gênios que foram cedo, mas deixaram uma legião de fãs.

  4. Antonio Seabra disse:

    O ano era 1971, eu estava nos boxes de Interlagos para assistir uma prova da Temporada Sul americana de F2. Tinha ido do Rio pra SP de carona com um amigo, que guiava muito e tinha um Puma. A viagem em si já tinha sido uma aventura….
    Estávamos lá para ver a Formula 2 sim, pra ver Emerson, Wilson, Graham Hill, Ronnie Peterson. Mas, muito mais que isso, tínhamos ido pra ver o Moco guiar um F2.
    Eramos fãs do Moco, já tínhamos visto ele correr no BRasil em diversas ocasiões, mas não de F2 !!!

    Nos treinos, o March 711 vermelho da equipe de Frank Williams estava um merda, como era de habito na então pequena e pobre equipe do futuramente grande empresario da F1, e dono de equipe varias vezes campeã do mundo. Mas tinha sido um show ver de perto o Moco fazendo o Sol e Sargento.
    No dia da corrida, Interlagos lotado, estávamos na área interna do Sargento, e conseguimos, nem me lembro como, entrar no paddock no intervalo entre o warm up a e a primeira bateria, Fiquei em frente ao box do Moco mas sem ousar me aproximar.
    A expressão do Moco não era das mais felizes, estavam mexendo muito no carro. De repente ele saiu, acompanhado por alguém que eu não me lembro quem era, caminhando pela area interna, de macacão aberto e capacete na mão, em direção ao estacionamento dos carros de quem era autorizado a estar ali. Eu e meu amigo, como eu também chamado Antonio, fomos atras, a espera de uma oportunidade de trocar algumas palavras com o idolo. O Moco parou junto a uma Mercedes sedan mais antiga (se não me engano era uma E230 de 67-68), o amigo dele abriu a tampa da mala e ele pegou numa bolsa uma viseira reserva, pra trocar no capacete. Nessa epoca o capacete estava todo branco. Eu me aproximei, tomei coragem e pedi um autografo. O Moco calmamente, falou: “Claro, me da o papel e caneta”. Só então eu realizei que, completamente idiotizado por estar falando com o piloto que eu mais admirava, eu não tinha papel nem caneta !!! rapidamente rasguei o maço de cigarros Hollywood, e estiquei o papel rateado, já com a parte branca virada pra cima, MEio abobado, perguntei: “sera que voce não tem caneta ai ?”. Porra, o cara tava de macacão !!!!! O amigo dele ainda procurou uma caneta dentro da Mercedes, mas nada. Dai eu falei: “OK, Moco, desculpe, fica pra proxima”. E emendei: “vai dar pra ir pra frente?” Ele repondeu: ” O carro tá muito ruim, uma merda, sai de frente, sai de traseira, motor falhando, estamos dando mais uma mexida pra tentar melhrorar alguma coisa. Mas eu vou acelerar o que der…” E eu ainda falei: como sempre, né, vamos ver o show. Ele riu, acenou e começou a caminhar de volta pros boxes. Viemos atras, mas fomos lá pro barranco acima da curva do Sol. Os carros sairam pra volta de apresentação, e já ali o Moco mostrou ao que veio: no estilo, barata de lado, conta-esterço perfeito, o March escorregando nas 4 sob total domínio. Uma aula !! Na saída do Sol, já na pequena reta para o Sargento, deu pra sentir o motor falhar em aceleração. A freada foi na pequena subida, pra la do Deus me livre, como só ele fazia….mas exagerou, e rodou no meio da curva, Dali não deu pra ver, só senti que tinha dado ruim. Corri pra tentar ver e ainda vi ele acelerando depois de ter voltado pra pista, já em direção ao Laranja.
    Assim era o Moco: o carro tava ruim, ele largava em quinto, era volta de apresentação, mas ele já vinha andando no limite extremo.
    Eu estava de novo em Interlagos em 1975, na vitoria dele. Não conseguia sair do autódromo, fiquei até tarde, debaixo de calor intenso e sem ter nem agua pra beber. Eu estava bebendo o sabor da vitoria do ídolo, e isso espantava a sede.
    Vi o Moco de perto depois da vitoria, mas só através das grades do paddock, O autódromo tava em festa com a Vitoria dele. Mas nunca mais tive a oportunidade de falar com ele, nem de pedir novamente um autografo. Apesar de ter levado papel e caneta….
    O Moco, dizem, e me pareceu tambem, era um cara tranquilo. Mas sentado dentro do carro, era um guerreiro, E como piloto, era um genio !!!
    Não era a toa que o Trovão, anos depois, falou: “Eu só vi 3 ETs guiando: o Moco, Ayrton Senna e Jim Clark”. Disse tudo !!!

    Antonio

    PS: Luigi, seguramente o Rato, apesar de muito veloz, não era mais rápido que o Moco. Pra mim, em termos de velocidade pura, dos que eu vi guiando, só o Gilles e o Ronnie eram iguais.

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